Tragédia

Lovis Corinth, Pietà.

Lovis Corinth, Pietà.

Parecia um dia normal, tal qualquer outro que já houvera amanhecido antes deste. Lentamente abria os olhos e a realidade borrada tomava forma nos raios de sol que o despertavam. Janela, maldita janela, Quem a deixou aberta?

Estranhou o momento, não se lembrava de haver uma janela exatamente ali. O espaço diferente apresentava-se desconhecido. Pensava estar possivelmente em um sonho. Bocejou alguma efêmera despreocupação. Esfregou com força os olhos. Mas, nada. Novamente. Nada. Parecia terrivelmente real.

Notou algo insólito quando levou mais uma vez as mãos aos olhos. Negras. Suas mãos eram negras. Como assim? Levantou-se. Havia um pequeno espelho pendente por um barbante em um prego na parede feita de tijolos. Mirou-se.

À maneira de uma cena kafkiana, viu-se transformado em outro. Era preto. Deu alguns passos para trás. Assustou-se. Chegou próximo à janela, definitivamente não era a sua casa, concluiu. Não era a sua vida. Olhou fixamente para suas mãos. Temeu. Olhou para a seu tornozelo: sua marca de nascença continuava lá, como tatuagem, como testemunha de sua identidade perdida.

Queria voltar para casa. Acordar daquele pesadelo. Não se conformava. Negro, eu? Correu para a porta. Ganhou a rua. Descia em meio às vielas tropeçando em tudo o que havia jogado por ali. Estava descalço, vestia apenas uma bermuda vermelha. Isso não era o que mais lhe afligia naquele instante.

O sol brilhava intensamente na cidade. O calor fazia-o suar, ainda que acreditasse que as gotas que lhe escorriam pela testa fossem puro nervosismo. Talvez fossem mesmo. Aproveitando-se da parada do ônibus, subiu sorrateiramente pela porta de descida. Mais uma antítese não alteraria o desconexo do dia. Não tinha qualquer dinheiro nos bolsos.

O coletivo ia lotado. Centenas de jovens dirigiam-se às praias. O saculejo do ônibus embalava uma alegria que nunca fora capaz de sentir. Apenas ele tinha o semblante tenso, exalando toda a preocupação e impotência diante do feitiço ao qual julgava estar preso.

Duas esquinas mais. O veículo para. Já estava suficientemente perto. Queria voltar para a casa. Abre-se a porta. Desce, chão quente. Dois passos e um policial agarra-lhe o braço. Documentos! Em um átimo, as mãos da autoridade já vasculhavam seus bolsos em busca de qualquer coisa. Só encontraram ausências.

Sem dinheiro e sem documento. Tá pensando que tá onde? Tá pensando que é quem? Então, tomado pelo medo, mas respaldado por sua essência, resolve lembrar quem era. Me solta, Sou o filho do chefe da polícia, seu boçal! Filho de quem? A mão pesada do soldado irrompia em um tapa que estalidava rubro em sua face.

Aproveitando-se da deixa, põe-se a correr. Breve perseguição. A obesidade do homem fardado não lhe permitiu acompanhar o moleque em sua velocidade. Entretanto, não o deixaria escapar.

Estava a poucos metros de casa. Tudo passaria. Tudo voltaria ao normal. Um estampido. Sentiu um calor atravessar-lhe o peito. As pernas arquejaram e os joelhos tocaram o solo. As mãos moviam-se pelo tronco, por onde escorria o viscoso fluido vermelho. Tudo se tornou opaco. A realidade novamente borrada. Caiu.

Saía do prédio para ver o que ocorria ninguém menos que o chefe da polícia. Diante de seus olhos e de alguns de seus subordinados, havia o corpo agonizante de um jovem. O chão continuava quente. O ar irrespirável. Bandido, gritaram alguns. Correu, justificou o policial.

O chefe assentiu com a cabeça, mas, ao voltar os olhos para o defunto, intrigou-se com algo. Abaixou-se, mexeu na perna do menino. Gelou. Reconheceu a marca naquele corpo sem vida.

Ao tocar na mancha, o desencanto acontece. Era a meia-noite de uma Cinderela avessa que não fora à festa alguma, mas da qual buscava voltar. Aos poucos, o menino voltava magicamente à sua forma original. O cabelo aloirava-se e a pele embranquecia. O chefe da polícia desesperava-se. Lágrimas. Virou o corpo. Um rosto ao sol. Já se vivia outra realidade. O menino morto transformava-se outra vez em seu filho.

E só aí foi que a história virou tragédia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *