A morte do jornalismo

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Não começou por acaso. Pode ter sido surpresa para alguns ter o nome na lista, mas no fundo sabiam que era uma questão de tempo. Ser demitido quando já se ganhou notoriedade, alcançando um patamar privilegiado na profissão, é frustrante. Aquilo em que se acreditou durante quase toda a vida, arruína-se, cai, desaparece.

A demissão de jornalistas do Infoglobo no começo de setembro expôs a situação precária dos veículos de comunicação, principalmente os impressos, no mundo inteiro. O Infoglobo reúne os jornais O Globo, Extra e outros veículos de comunicação do Grupo Globo, que iniciou um grande corte no quadro de funcionários, que pode chegar a 300 demitidos. Dentre eles estão Pedro Motta Gueiros, Aydano André Motta, Pedro Dória, Luciana Fróes. Alguns dos que me fizeram ter paixão por essa profissão. A saída de jornalistas tão importantes do quadro das grandes empresas de comunicação é o prenúncio da morte. Não lê-los é apagar um pouco mais o já combalido jornal de papel.

Trata-se de uma crise global de comunicação. O Dia, Terra, Brasil Econômico, Grupo Bandeirantes, Agência Estado também tiveram cortes esse ano.

Exatamente quando o fluxo de informação atinge níveis nunca vistos, aquele que deveria filtrar e facilitar essa comunicação, se perde em seu passado arcaico e tem dificuldade de se reinventar.

Culpam a crise do país. Não olham para si. Não aceitam que o erro está na forma como lidaram (ou não) com os avanços da tecnologia e as mudanças de perfil dos leitores. A “crise” econômica brasileira, tão alardeada pelos veículos, está longe de ser o motivo da derrocada dos mesmos.

O mundo mudou. Não há como negar. Quando deixamos de acreditar no novo e dar-lhe ouvidos, somos condenados. Para onde foram todos? Continuam aí, ávidos por novidades. Tente entende-los. Tenha empatia. Compreendendo as necessidades do outro, resgatamos quem somos nós. Renascemos.

Gay de Girardin, autora francesa do século XIX, já anunciava que “não são os redatores que fazem o jornal, mas os assinantes”.

A venda do Washington Post, um dos maiores jornais americanos, por U$ 250 milhões, em 2013, foi apenas mais um capítulo da crise econômica e de identidade do setor. Ainda nos Estados Unidos, o Boston Globe foi vendido por U$ 70 milhões pelo New York Times Group, que o havia adquirido 20 anos antes, por U$ 1,1 bilhão. Uma queda assustadora no valor de mercado.

Perda de anunciantes, redução de tiragem. O futuro da comunicação é mera especulação. Alguns apostam na extinção do jornal impresso. Outros acreditam na diversificação de mídias, através dos tablets, smartphones, e-readers. Eu acho que a grande revolução ainda está por vir. Ainda estamos engatinhando no universo digital.

Quem tem grana para apostar?

O jornalismo morre quando se debruça nas mazelas humanas apenas enquanto lhe dá lucro e as esquece quando outra tragédia ganha mais notoriedade.

O jornalismo morre quando o pobre preso é traficante e o helicóptero com 400 kg de cocaína em propriedade de político é apenas um engano. Culpa do piloto (funcionário do político dono da fazenda onde o helicóptero pousou).

O jornalismo morre quando se “esquece” por 72h da escalação irregular de um jogador que o próprio jornal havia anunciado a suspensão e só volta a “lembrar” do fato quando é anunciada a “coincidência” de um erro semelhante de outro clube, na mesma rodada, que beneficiaria o primeiro.

O jornalismo morre quando ignora por anos a barbárie das guerras civis na Sìria e no Afeganistão, dando atenção apenas após a morte absurda de mais uma criança em uma praia turca.

O jornalismo morre quando a crise hídrica só passa a ser um problema quando atinge os estados do Sudeste, ignorando as décadas de seca no Nordeste.

O jornalismo morre quando faz campanha pela redução da maioridade penal.

O jornalismo comete suicídio quando o filho do Pitanguy é tratado como vítima de um acidente e o pedreiro José Fernandes da Silva, morto no acidente, mal é citado na matéria.

O jornalismo morre quando fecha os olhos para remoções arbitrárias como na Vila Autódromo ou com o desastre ambiental do campo de golfe na Barra da Tijuca.

O jornalismo assina o próprio óbito quando trata índios como invasores, mostrando apenas o lado dos latifundiários no Centro-Oeste, dando pouca ou nenhuma atenção para os assassinatos de indígenas cometidos por fazendeiros.

Como disse Malcolm X: “Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido”.

Para os jornalistas é a chance de recriarem o meio de comunicação com seu público. Seguindo como está, um dia não haverá jornal para anunciar o próprio obituário.

O jornalismo (como o conhecemos) morreu. O jornalista, jamais.

“Não falar para o seu século é falar com surdos”

Jean de La Fontaine

@nestoxavier

4 thoughts on “A morte do jornalismo

  1. Christina Morais disse:

    Bato palmas mais uma vez.

  2. Jaqueline Aragão Vieira disse:

    Realmente, o jornalismo morre quando omite fatos e quando é parcial. Mas quando mente,então, é que vemos o ocaso total deste que fez a revolução no passado. Coragem! Avante!

  3. Janete Carvalho disse:

    O que seria de nós sem os jornalistas?

  4. Nice Lira disse:

    É triste ter de admitir o que estamos vivendo, sonhei com esta profissão toda a minha adolescência e só agora estou tendo a oportunidade de fazer com que meu sonho se torne realidade. Chorei lendo este texto, profundo, realista e triste. Concordo com tudo que você falou e lamento pelos Jornalistas que perderam seus empregos, porém, devemos sim citar e exigir melhoras do Jornalismo, tratar assassinos como vítimas e esquecer-se de quem realmente perdeu a vida nessas tragédias está virando moda e nos fazendo desacreditar no justo. A questão da imigração não é de hoje, milhares de pessoas morrem diariamente e só foi ter repercussão quando tiraram a foto da criança morta. Lamentável!
    Diante de tanta crise em diversos setores não devemos aceitar mais uma e sim nos unirmos para mostrar que podemos fazer com que o Jornalismo seja justo, verdadeiro e íntegro com quem faz o jornal acontecer (a população).

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