Lágrimas ao mar

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Era uma praia. Uma praia. O mar quebrava na costa, como há milhões de anos. Águas que trazem vida. Águas que conduziram os povos. Águas. Águas.

Um mar inteiro que resolveu chorar. Um drama que águas não lavam. Cada gota do salgado mar chegava à costa como lágrimas que correm no rosto assustado dos desavisados.

Como surpresa, como aberração, como espanto as espumas das ondas bordavam a praia de tristeza e dor. Como se pintassem o retrato de nossa falência, de nossa impotência.

Tantos mares navegados. Descobridores, conquistadores. Riqueza, civilização. As ondas continuavam batendo na costa. Nas costas de outros, apenas o açoite. Eterna noite.

Tenebrosas tormentas de atormentados territórios. Espólios. Números não têm vida. Mas a vida dos poderosos transforma tudo em números.

Era uma praia. Uma praia. Cenário improvável das tragédias éticas e morais. Idílio paradoxal do esgoto criado pela ganância.

Lutas e sangue. As consequências óbvias de intromissões, de invasões, de impérios. De repente, as ondas trazem de volta o resultado da ignorância. Mas, nem assim, os homens podem assumir seus erros.

Era, enfim, uma criança. Afogada no mar da intolerância. O sal da água que chorava a perda de todo sal da terra.

Morto por canetas ‘mont blanc’. Linhas tortas, linhas tortas.

Europa, mítica mãe da civilização. Ganância que assolou Áfricas e Américas. Nossa humanidade escoa pelo ralo da história na imagem perdida de uma criança morta.

Morremos todos. Ainda que continuemos vivos para testemunhar mais lágrimas que não tardarão a nos chegar.

Era uma criança. Uma praia. Uma possibilidade.

Morta. Sem vida. Nas areias de um mundo sem alma.

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