Não existe amor

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Algum dia entre os séculos XVI e XIX os meus ancestrais chegaram a essa terra. Vieram em porões de navios atravessando o oceano atlântico desde a África. Enfrentaram fome, frio, doenças, sede, enjoos, completa insalubridade. Sobreviveram sabe-se lá como. Não tiveram escolha. Eram mercadoria, apenas. Faziam parte de um sistema que sustentava a sociedade brasileira. Sem eles não existiria o Brasil colônia. Portanto, o povo apoiava essa condição. Não sentiam pena pelos que morriam pelo caminho. Não lamentavam as condições em que eles eram colocados.

Antes de qualquer outra colocação é importante frisar: o africano que veio para o Brasil durante o período escravocrata NÃO era um imigrante e nem um refugiado.

A escravidão legal praticamente acabou no mundo. Sua cultura, não.

Muitos ainda veem o ser humano como um pedaço de carne. Ainda existem (muitas) pessoas que não conseguem enxergar alguém considerado diferente: estrangeiro, negro, gay, gordo, árabe, judeu, com amor.

Estão imersos em seus próprios problemas, preocupados apenas com a bolsa da China, o Orçamento do Governo, o preço da cerveja no supermercado, o resultado do futebol, a esquerda, a direita, o whatsapp do namorado(a), a próxima plástica…

Passamos a olhar para o horror da guerra civil na Síria porque uma criança foi encontrada morta em uma praia na Turquia. Na verdade, eram dois irmãos, a mãe e outras 8 pessoas. Todos náufragos. A imagem do garoto de bruços sobre a areia, inerte, inocente, choca. Naquele momento o mundo se sente impotente. A Humanidade tem que reconhecer que errou feio o caminho.

Para onde fomos? O que escolhemos como certo para nós? Que prioridades temos para a vida?

É o carro novo? A promoção da empresa? A viagem nas férias? A poupança?

Quem consegue se sentir um vencedor na vida ao ver aquela imagem?

Aylan Kurdi é a prova de que errei. Admito. Outros talvez admitam junto comigo. Muitos dormirão tranquilos pensando no final de semana que se aproxima ou lamentando a segunda-feira que assombra os insatisfeitos.

Os barcos de refugiados são os navios negreiros do século XXI. As mortes se espalham sem que suas vítimas sejam conhecidas. Estas pessoas tinham uma vida, família, trabalho, uma história para contar. Mas quem se importaria em saber? Já estavam mortas para o mundo bem antes de serem tragadas pelo oceano.

Junte a elas os trabalhadores escravos em países asiáticos, mulheres mutiladas na África e privadas de direitos básicos em diversos países, meninos corrompidos pelo tráfico de drogas nas favelas, povos miseráveis aqui e em toda parte, reféns do Estado Islâmico e dos Talibãs.

A espécie humana fracassou até aqui. Alguns focos de esperança espalhados pelo mundo nos salvam da extinção merecida.

O que me diferencia do habitante da outra margem do rio ou do oceano?

O passaporte? A língua? A cultura? O biótipo?

Essas diferenças são suficientes para que eu não sinta empatia por ele? Prefiro pensar no que temos de semelhante.

Eu morri um pouco com cada um dos 300 mil sírios vitimados pela guerra. Morri com a fome e as doenças dos africanos. Morri, pois sou irmão das vítimas. Morri, pois sou irmão dos vilões.

Aylan Kurdi tinha apenas 3 anos de idade e pôde sentir, em tão pouco tempo, como a vida pode ser cruel. Queria dizer alguma coisa a ele, mesmo que não entendesse:

Nem você ou sua família erraram ao tentar atravessar o mar em busca de uma vida mais justa, fomos nós que erramos ao perder a capacidade de amar.

 

5 thoughts on “Não existe amor

  1. Eduardo Felipe disse:

    Muito chocante. Que sirva pra abrir nossos olhos.

  2. Márcia Uchôa disse:

    Que reflexão… que texto…

  3. Luana disse:

    Ontem o humorístico “Pé na Cova” falou sobre aqueles que estão mortos ainda que pareçam vivos. E como o humor de Falabella sempre tem uma crítica social, vi no programa muito do que vc falou aqui. Daqueles que parecem mortos aos olhos da sociedade. Enfim…..mais um belo texto seu, irmão. De vez em quando precisamos desse choque de realidade. Muito obrigada.

  4. Nalenkya Zeferino disse:

    Dói saber que acontecem coisas tão desumanas por ai a fora do Brasil, enquanto muitos, inclusive eu, reclamamos de coisas tão fúteis e banais, que por pior que seja irá passar! Enquanto existir a fome, a miséria, a falta de amor, o preconceito, a homofobia e todas essas coisas ridícula, que não passam de rótulos, existirá sempre guerras, assassinatos, suicídios… Temos que parar para pensar e ver o quão fúteis estamos sendo ao rotular alguém! Entristecida com a ocorrência, temos de nos unir para que assim possamos ter um mundo mais justo!

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