Degustação de mau-humor

mau humor

Frequento, aqui em Brasilia, um mercado chamado Super Adega. É uma espécie de super-atacado, com uma enorme adega no subsolo, que vende vinhos de todos os preços. Dos vinte reais ao infinito e além. De vez em nunca, vou lá com cem contos (mesmo!) em busca de 3 ou 4 garrafas garimpadas no meio de milhares de rótulos, a grande maioria, infelizmente, inacessível para meus parcos reais.

Mas, como muita gente já sabe, felizmente o mundo do vinho não é cartesiano. Existem porcarias de 100, 200, 500 reais e maravilhas de 25, 30. E vice-versa. Garimpar e acertar é boa parte da farra.

Então, quando há uma ocasião (receber amigos em casa, algum jantar, algum aniversário) eu me dou de presente umas duas horas (o tempo voa!) procurando no meio de milhares de rótulos o que levar. Em alguns dias, infelizmente, o orçamento é ainda menor. Então você é obrigado e reduzir ainda mais a sua escolha. E a coisa começa a ficar mais difícil. Lógico, vinhos baratos e bons são mais raros do que seus primos ricos.

Como eu disse, essa é a diversão. Vou escolhendo e colocando tudo o que me interessou no carrinho. No final da escolha, tenho normalmente de oito a dez garrafas escolhidas. E orçamento pra quatro. Ai, começo a devolver uma a uma o que decidir não levar.

Noutro dia, com um jantar mais importante e sem as duas horas disponíveis, decidi pedir a ajuda de um dos “colaboradores” do mercado. São (ao menos em teoria) conhecedores de vinho. Engravatados, estão ali pra ajudar os compradores em suas dificuldades.

Claro, eu não sou (na cabeça deles) o público alvo. Um plebeu, de bermuda e tênis, comprando uma meia-dúzia de garrafas. Já vi alguns venderem um carro popular em caixas de vinho. Enfim, abordei um. Gordinho, baixo, cara simpática. Pedi ajuda para comprar quatro garrafas de até 35 reais cada. O sujeito andou. Parou nos portugueses. Apontou um. “Excelente custo-benefício”. Cinquenta reais. Achei caro. Pedi outro. Me apontou um segundo português. 46. Tá acima do que eu posso. Vou procurar e lhe pergunto, pode ser? Claro! Esteja à vontade.

Parênteses: “custo-benefício” é o irmão gêmeo do maldito “diferenciado”. “Este é um cabernet de excelente custo-benefício”. “Fulano é um atacante diferenciado”. Enrolação. Isso não quer dizer porcaria nenhuma.

Voltemos à compra.

Usei meu método. Tinha sete garrafas. Voltei ao sujeito. Ele estava próximo de outros dois vendedores. Expliquei.

– Separei essas sete garrafas aqui. Pode me ajudar a escolher?
– Não! De jeito nenhum! Se eu escolher pelo senhor, eu vou lhe causar alguma frustração. O senhor faça o seguinte: Vá pro caixa, e chegando lá, o senhor escolha os rótulos mais bonitos, as garrafas mais chamativas e pode levar.

Os olhos do outro vendedor quase saltaram de órbita. Eu estava num dia de stress total. Aquela era a minha diversão. A resposta foi tão estapafúrdia, tão grossa, que eu confesso que nesses momentos me baixam uma calma inexplicável. Depois, no carro, pensando no cara, me dá vontade de voltar lá e partir pras vias de fato. No momento, nada disse. Dei o sorriso dos estúpidos e fui me embora com os vinhos que eu mesmo escolhi. Eram bons.

Ontem, voltei pela primeira vez ao local. No lado de fora, uma moça dava provas de um vinho nacional. Aceitei. Um senhor ao meu lado também quis. Provei. O homem bebeu o vinho. Fez uma cara feia, pronunciou um “argh” altíssimo, atirou o copinho ainda com vinho grosseiramente no lixo e deu as costas à menina que trabalhava sem um obrigado ou coisa que o valha.

Entrei na adega. A primeira pessoa que vejo foi o cidadão. Me reconheceu. Atendia um casal jovem que buscava uma única garrafa de vinho. Estava falando dos italianos. Num tom mais alto do que o lugar recomenda. “A senhora está procurando um vinho doce, esse aqui é bem leve, mas ainda assim é um vinho de verdade”. Sai de perto pra não me aborrecer. Uns dez minutos depois, vejo o casal saindo e a mulher dizendo que se o cara continua, ia plantar a mão na cara dele.

Comprei meus vinhos.

O mundo está coberto de pessoas grosseiras e sem-educação, prontas a estragar o dia do outro. Até num lugar onde, teoricamente, o humano, pobre ou rico, vai buscar diversão. Minha omissão ao não reclamar do sujeito pra quem de direito, pode ter ajudado a estragar o momento do casal de ontem. Na próxima ida ao estabelecimento, vou me reportar ao gerente e cumprir minha obrigação de cidadão.

Mundo esquisito.

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