Ser livre é…

João não tem pai. As lembranças que tem dele talvez sejam apenas uma criação de sua mente fértil. São em pensamentos que ele viaja pelo mundo.

João acordou cedo, mas não foi pra escola. Tem que ajudar a mãe. Não teve o que comer pela manhã. Talvez tivesse à tarde. João poderia querer ser doutor, se soubesse o que isso significa, mas João só quer ver a mãe e os irmãos bem. Como fará isso? “Trabalhando, uai”. João já apanhou muito e não foi da mãe. Quase sempre pelas mãos de um tal Juvêncio, que tem mania de chama-lo de preto preguiçoso. João tem 11 anos, mas não chora. Aprendeu a ser forte com a vida. João quer crescer e sair dali. Sonha em levar a família para onde conseguir ir. Só não sabe pra onde. Quer ficar grande e dar uma surra em Juvêncio.

João vive em 1832, mas poderia ser em 2015.

A quem foi dado o direito à liberdade?

Hoje, milhares de jovens estão fora da escola. Não por preguiça, mas por circunstâncias que a grande maioria da população letrada e “de bem” talvez nem saiba classificar. Tiroteio na porta de casa diariamente, falta de alimento na panela (muito menos na geladeira), escolas mal equipadas, falta de professores e o principal deles: falta de incentivo.

Qual a motivação de um aluno que vive em regiões miseráveis do país para estudar? Que exemplos ele tem em casa ou próximo a ele que o fariam vislumbrar um futuro decente a partir da educação?

A realidade deste jovem é feita a princípio por meio da imagem da violência. Violência que passa a fazer parte de uma cultura enraizada.

O “preto e pobre” não vê corpos cravejados de bala na televisão. Ele vê ao vivo. Ele tem receio de que o próximo possa ser ele. Ao passo que apenas agora o carioca de classe média alta tem este medo, e mesmo assim de uma forma bem mais branda, o morador da periferia aprende a se defender do fogo cruzado, a pensar na bala perdida, a temer a força policial e a bandidagem desde que nasce.

Segundo dados cedidos pelas Secretarias de Segurança Pública em 22 estados (outros 4 estados e o DF não disponibilizaram informações), em média 7 pessoas morreram por dia pela mão da polícia militar no Brasil em 2014. Esse são dados oficiais. Nem quero discutir os extraoficiais, pois se nem os números da Ditadura, que acabou há mais de 30 anos, são precisos, porque os dados que poderiam incriminar policiais na ativa seriam?

Essa pesquisa poderia ser ainda mais precisa. Quantas dessas 2.526 mortes foram em combate? Quantas de menores de 30 anos? E de menores de idade? E de inocentes? Quantas de negros e pardos? Quantas em legítima defesa? Quantas foram apuradas, investigadas?

A escravidão foi abolida por lei, mas a figura do capataz continua nas ruas. Os quilombos perderam sua real necessidade, mas afastar o negro e o pobre dos olhos da sociedade economicamente ativa e dos turistas continua sendo uma prática. Por que os moradores da Vila Autódromo serão jogados para longe? Antes o local não tinha interesse imobiliário. Agora não. Vai virar área nobre. Vai ser cartão postal da cidade durante os Jogos Olímpicos. E beleza não combina com pobreza. “Vão já procurar outro quilombo”!

Preto e pobre para ter direito a andar nas áreas nobres tem que estar de uniforme. Tem que estar a serviço. Serviçal. Roupa branca pra cuidar do filho do bacana. A eles nem foi dado o direito de sonhar com o uniforme branco do doutor. “Você não se esforçou. É vagabundo. Se tivesse estudado, hoje seria doutor”.

A quem foi dado o direito à liberdade?

Quem pode sair da favela? Quem ousa ir contra o status quo ?

Preto é parado na blitz. “Como você conseguiu esse carro”? Mão na cabeça. Arma apontada na sua direção. Revista o bolso, revista o carro, “tá indo pra onde?”, “tá vindo de onde?”.

Foram 388 anos de escravidão. A princesa assinou os papéis e depois lavou suas mãos. Não era mais problema dela e nem de quem os manteve em cativeiro. “Aqui tinham comida, moradia…agora que se virem. Estão livres”.

Alguém sabe realmente o que significa liberdade?

Ser livre é poder sonhar em ser doutor e fazer disso uma escolha. Ser livre é ter escolha. É não ter medo de voltar tarde pra casa por causa da guerra do tráfico ou da “pacificação”. Ser livre é chegar a escola alimentado. Ser livre é viver em uma casa decente. Ser livre é não ter medo de ser despejado pelo Estado. Ser livre é ter o mesmo julgamento pro favelado e pro filho do Eike Batista. Ser livre é não precisar de rolézinho pra entrar no Fashion Mall. Ser livre é escolher se você quer entrar no Fashion Mall. Ser livre é saber que o museu, o teatro e o cinema são lugares para você. Ser livre é frequentar a faculdade, o curso técnico, a praia, o clube, o parque, o estádio.

É triste ter que discutir a liberdade. Em um país que discute tanto os andamentos do Legislativo, porque algo que está garantido na Constituição ainda está tão longe de ser cumprido.

O que diria João ao ver a vida de um semelhante nos dias de hoje?

“Não serei livre enquanto meus irmãos continuarem a ser vistos como escravos”.

Para quem serve essa liberdade?

3 thoughts on “Ser livre é…

  1. Christina Morais disse:

    Ainda não sou livre.

  2. Janete Carvalho disse:

    A liberdade que existe é uma ilusão.

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