Corrida para a liberalidade

Naquele dia, resolvi pegar um táxi. Na verdade, eram poucas mesmo as opções. Corrida boa, do aeroporto até a Tijuca. O desejo era apenas chegar logo, encontrar-me com a cama e descansar um pouco.

Esperava, ao entrar no carro, as trivialidades de sempre. “Tempo louco este, não?” Quem sabe um pouco de futebol? Mas, não. Aquele parece ter sido um sorteio no qual perdi logo de cara. O motorista, mal-humorado, falava do assunto nacional, a crise.

Não demorou muito a perceber que era um leitor assíduo da Veja – digo não só pelo teor do discurso que viria, mas por tê-la citado nominalmente – e julgava-se o bastião da coerência em suas críticas. Não queria discutir e tentava sorrisinhos e uma brecha para encaixar um “parece que vai chover, não é?”

Que nada. Desandou a reclamar do país. E a culpa, invariavelmente, do PT. O problema, segundo ele, é que havia estado demais. “Isso gera corrupção. O governo quer tudo pra si, quer meter a mão em tudo.” E citou Constantino. Sim, ele citou! Falou das tendências liberais e explicava os benefícios da livre-concorrência aliada à meritocracia com uma profundidade de uma piscina plástica vazia. Baixei os olhos e torci por uma cidade menos engarrafada…

Reclamou dos impostos, altíssimos! Citou que sua filha voltara do exterior há pouco e fora taxada por um equipamento (não me recordo mais qual era) que ela trouxera do exterior! Um absurdo, só no Brasil. Pensei em avisar a ele que impostos alfandegários ocorrem em qualquer país do mundo, mas estava firmemente disposto a não abrir a boca.

Por mera inferência, entendi que a “taxação” referia-se à tentativa de entrar com o aparelho ilegalmente. Não deu tempo de articular nada, pois ele seguia de forma voraz em suas reclamações. “Deviam deixar que as empresas mundiais pudessem vender suas coisas aqui… isso é ridículo, o mesmo produto custa o quádruplo aqui!”

Não cheguei a perguntar, mas parece que ele leu o comentário em minha testa: “as empresas nacionais não iriam à falência assim?” e emendou: “e as empresas nacionais, bom… o mercado é assim, quem é bom se estabelece, só fechariam aqueles que não têm competência”.

O rádio nos interrompeu, falando sobre uma manifestação dos taxistas programada para o final da semana contra o Uber. O rosto do condutor enrubesceu. Entrávamos na avenida Maracanã.

Isso é outro absurdo, disparou. A gente paga impostos altíssimos, investe uma grana forte na autonomia – pensei interrompê-lo para avisar que comercializar uma concessão pública não me parecia muito ético, mas vi que o sinal estava verde e que chegaria logo –, acenei com a cabeça, fiz um “arrã”.

“É na próxima esquina, senhor”. Enquanto parava o carro, continuou: “aí vem alguém e bota um carro na praça para rodar e tirar passageiro da gente? Com aplicativo de celular? O governo não vê isso… A gente paga imposto para tirar essa gente da rua!” Paguei, sorri e desejei boa sorte.

Bati a porta do carro e percebi que a economia de mercado é excelente para qualquer um que não seja ele mesmo. Senti que o motorista foi embora ainda esbravejando contra tudo. Em homenagem a tudo que ouvi, resolvi baixar o tal aplicativo…

One thought on “Corrida para a liberalidade

  1. Ernesto Xavier disse:

    Muito bom!
    Tenho feito o mesmo: fico calado. Me dá uma vontade enorme de abrir a boca e dar opinião, mas não vale a pena.
    Hoje tive uma surpresa. Um vendedor de banca de jornal me parabenizou porque eu disse que não comprava a Veja. Ele disse que ficava feliz quando via isso.

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