Um minuto de Jorge Mautner

Rush hour, o mundo lá fora sofrendo no trânsito caótico da combalida Guanabara. As pessoas tendo muito a viver até a hora de dormir, quando vão recomeçar a girar a roda social.

Na TV Brasil, a reprise do Estúdio Móvel, apresentado por Liliane Reis. Uma revista eletrônica onde se vê, ouve e lê raridades em se tratando de tevê aberta.

Breve entrevista com Jorge Mautner gravada em 2011, um dos mais brilhantes brasileiros do século XX – e, por consequência, o XXI.

Músico, cantor, poeta, escritor, pintor, prêmio Jabuti aos 21 anos de idade.

Um monstro da intelectualidade brasileira ainda não descoberto por milhões de nossos parceiros de pátria – que, aliás, não andam descobrindo nada de muito relevante nos últimos quarenta anos.

Impressionante constatar, em pequenos goles da rápida entrevista, a atemporalidade da obra de Mautner. Sua incessante velocidade mental, sua agilidade, sua capacidade em decifrar códigos improváveis.

Ou o mundo se brasilifica ou vai para o buraco.

Já foi?

Exu, Bangu e Itu num mesmo metro quadrado. Filosofia, alquimia, literatura, conversa de botequim, tudo junto.

Recentemente o artista foi objeto de um grande documentário de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt. Seus álbuns foram relançados em caixas especiais. Existe uma facilidade enorme em acessar sua obra, diferentemente do passado. Mas afinal, o que falta para o Brasil descobrir Mautner, dado que aplaude dois de seus brilhantes súditos/alunos/parceiros? Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Responder é difícil. Mas refletir a respeito, não.

Quando se olha para as manchetes chinfrins dos outrora grandes jornais, a dialética intelectualmente anêmica que reina nos debates políticos, mais a incapacidade de diálogo numa sociedade cada vez mais retrógrada, individualista e neoconservadora, parece evidente que a obra de um artista como Jorge Mautner não “deve” ser popularizada.

Pode causar riscos.

A massificação do ideário JM seria capaz de provocar uma verdadeira revolução cultural no Brasil, na melhor acepção da palavra.

Há muito tempo, Mautner escreveu que existe arte no porta-estandarte, quando tratavam o Carnaval de forma jocosa e reducionista. Ninguém entendeu direito. Quase ninguém entende.

Um gênio para poucos.

Pior para a vida.

@pauloandel

One thought on “Um minuto de Jorge Mautner

  1. Que legal o texto, tenho escutado muito JM.

    Reassisti recentemente ao documentário produzido/dirigido pela dupla Bial/D’Alincourt – havia visto ano passado, revi pra conversar com o Heitor, pro programa.

    Tem no YouTube. É obrigatório.

    O papo com sua filha Amora, minha parte favorita, fundamental.

    JM é lacrante, simplesmente – pra usar uma expressão hoje tão em voga.

    Um gênio brasileiro.

    Meio que abandonado às margens plácidas, é verdade. Mas aí já são outros quinhentos.

    Quinhentos anos, talvez.

    Ou no mínimo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *