Foi sempre assim ou eu estou vivendo o pior?

Em 2001 dois aviões se colidiram com dois prédios gigantescos em Nova York. A maior potência mundial, antes segura dentro de seu território, passava a sentir na pele o terror que só conhecia em filmes produzidos em seus estúdios (coincidentemente catastróficos com suas belas cidades) ou então em telejornais, que noticiavam algo que ocorria a milhas de distância. Estava oficialmente inaugurada a Era do Terror.

Osama Bin Laden passou a ser um cara conhecido. As Torres Gêmeas, mesmo transformadas em pó, viraram o maior ícone da cidade que nunca dorme. O terrorismo passou a ser pauta dos jornais. A sensação de medo tomou conta da sociedade americana (e porque não dizer mundial?). Cada canto poderia esconder um perigo que não se sabia o motivo, a hora, a
extensão…só se sentia o medo, que pairava sobre as ruas como uma névoa densa, turva.

O atentado do 11 de setembro foi algo bizarro? Foi. Alguém duvida que suas consequências foram catastróficas? Também acho que não. A imprensa ajudou a multiplicar essa sensação de medo? Com certeza.

A internet ainda engatinhando, porém ganhando força a cada dia, fazia chegar rapidamente às casas um número absurdo de notícias na época. Eu me recordo de ter conseguido acessar os sites do New York Times e do Washington Post naquele dia e de me sentir um privilegiado, pois todos os sites de notícias americanos estavam congestionados com tantos acessos, algo impensável para o período. Não existia o Orkut. Não existia Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat… Garanto que um evento da mesma magnitude nos dias de hoje causaria uma catástrofe ainda maior, pois muito do que concerne a um evento diz respeito a como aquilo age sobre nós. Teríamos cem vezes mais imagens, relatos, debates, suspeitas, medos.

O Governo americano, com seus alertas “laranja”, “vermelho” e a imprensa, com seu afã de vender jornais, conquistar audiência, lutar contra uma queda (morte) que hoje se mostra inevitável, se apegou ao medo para conquistar a sua fatia do bolo. Uma sociedade governada e controlada através do medo é muito mais fácil de manipular. Assim Bush se reelegeu. Assim convenceram a população de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Assim conseguiram expandir a verba para manutenção de tropas militares (alô indústria armamentista!) no Oriente Médio. Assim justificaram a morte de inocentes.

Não escrevo aqui um artigo científico, é apenas uma divagação sobre algo que acompanhei desde o início e que vejo se repetir em escalas diferentes por aqui, hoje. Pois bem, a internet se expandiu, chegou aos celulares (que em 2001 serviam apenas para ligar ou enviar mensagens), chegou a todos os cantos (não me neguem a senha do Wi-Fi).

Hoje não preciso sair de casa (e a mídia me incentiva a ter medo da rua), pois abro o computador ou dou uma checada no celular e vejo o medo. São posts no Facebook, compartilhamento de notícias (em geral de fontes duvidosas), opiniões e xingamentos de todos os tipos. A internet é a melhor e a pior coisa que nos aconteceu nos últimos anos.

De acordo com a internet:

. A violência no Brasil tem nos jovens de 16 e 17 anos os seus maiores vilões.
. A corrupção brasileira começou em 2003.
. Serei esfaqueado (provavelmente por um menor de idade) na esquina da minha casa.
. Esta é a pior (Por que não a primeira?) crise econômica da história nacional.
. Nunca fomos tão racistas, tão homofóbicos, tão religiosos, tão violentos…

Acreditem: o mundo já foi bem pior. O Brasil já foi bem pior. Pensar no passado como um período mais romântico é como desconsiderar a história. Dito isso, afirmo que mesmo assim não quero este mundo que se apresenta.

Já escravizamos negros. Já queimamos mulheres acusando-as de bruxaria. Já exterminamos índios. Já proibimos o candomblé e a umbanda.

Hoje excluímos o negro e o chamamos de macaco em estádios. Hoje batemos ou estupramos mulheres com o argumento de que elas provocaram. Hoje queimamos índio pensando que era mendigo. Hoje apedrejamos e desejamos o inferno para quem veste branco e tem fé nos orixás.

As consequências são “menores”, mas igualmente bárbaras (no sentido negativo de “bárbaro”, é claro).

Foi no 11 de setembro que o terror ganhou tons épicos e se espalhou como vírus. O mundo evoluiu e a sensação de que tudo está pior cresceu. Por que? Temos mais acesso, temos mais informação, estamos conectados a tudo e de tudo temos algo a falar.

“Os adolescentes cometem menos de 1% dos homicídios do Brasil e são 36% das vítimas”. Como passaram a ser considerados os grandes vilões? A política do medo. “Alguém” quis nos fazer acreditar que colocando jovens em prisões comuns e não em reformatórios para menores seria a solução para todos os problemas de violência no país.

Como fizeram isso?

Espalhando notícias direcionadas. Espalhando o medo. É um negócio muito lucrativo e que beneficia toda a cadeia produtiva. A notícia de que um “homem de bem” (leia-se: classe média alta) morreu pelas mãos de um menor de idade na zona sul do Rio (leia-se: onde os ricos deveriam se sentir protegidos) vende mais jornais. Vendendo mais jornais, mais anunciantes são vistos. Mais gente nas cadeias: mais empreiteiras em licitações, mais material de segurança, mais alimentos (licitados, é claro), mais presídios privados, mais, mais, mais…

Um jovem que nada custou para o Estado, já que não lhe deram saúde, saneamento básico, educação, moradia, alimentação, cultura…acaba dando lucro para o próprio Estado e seus financiadores. Tudo às custas do medo.

O 11 de setembro foi apenas uma forma de mostrar como o medo (real ou aumentado) pode nos levar a interpretações perigosas da realidade. Está tudo pior ou foi sempre assim?

One thought on “Foi sempre assim ou eu estou vivendo o pior?

  1. Christina Morais disse:

    Antes não tínhamos acesso às notícias reais e hoje continuamos assim. Maravilhoso o texto.

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