Eu não sabia que meu relacionamento era abusivo

Estou meio perdida aqui, confesso.
Bem… vontade de escrever um texto por dia não me falta, falta é coragem mesmo!
Meu foco / assunto principal é o abuso físico e emocional que atinge muuuitas mulheres. E que marcou minha vida.
E , aproveitando o recente acontecimento com um famoso ator global e a palavra BUCETA, vou contar que também fui vítima de abuso e, como eu, várias de nós, mulheres. Todos os dias!

Não acontece apenas com as “faveladas”, como burramente já ouvi! Penso que essas são muito mais fortes e fodonas que muitas doutoras e madames que convivem porta a porta com vocês e comigo…

Ocorre que meu casamento não era essa Coca Cola toda e eu mesma não sabia explicar o motivo. Mas como? Aquele moreno alto, lindo, com um emprego estável, bom pai de família, que fez questão de por nosso primeiro imóvel, comprado antes de casarmos, no nome de nós dois, mesmo tendo dado muito mais que 50% do valor? Quer mais prova de amor do que essa? Impossível!

Eu, que cresci ouvindo da minha mãe que se não casasse estaria incompleta! Que se continuasse a curtir minha vida como eu gostava, seria taxada de puta ou vulgar! Algo que, até dentro de casa, já era meio que dito de forma velada…

Enfim, um dia conto toda essa história bem organizada pra vocês. Hoje minha meta é escrever um texto! Começar!

Vou contar uma breve historinha, algo que era corriqueiro em minha vida! E… foco na palavra BUCETA, por favor.
Bem, meu ex marido era bastante ciumento! E eu imaginava que dava motivos para isso. Afinal, gostava de roupas bonitas. Nunca usei nada curto. Mas mesmo assim, meu vestir era sempre inadequado para ele!

Vou parar de enrolar…

Tinha uns cinco ou seis meses que eu tinha ganho meu segundo bebê.  Durante a gravidez, eu tinha engordado uns vinte quilos. Meu prédio (meus vizinhos) acompanhou o crescimento da barriga (e meu!) e a chegada do bebê!

Neste dia, quando apareci num evento no nosso salão de festas, já bem mais magra, muitos vieram falar algo bem normal para a situação – mas inconveniente para a minha relação: elogiar a minha perda de peso.

No meio da confraternização, um dos vizinhos se aproximou de mim para conversar. Fiquei tensa, pois sabia que teria problemas com isso! Dito e feito! Ele se aproximou e tocou no pezinho do meu filho, que estava no meu colo, e sendo seguro por mim de pé, na frente da minha barriga (é importante que vocês visualizem essa imagem!).
Falou algo sobre meu peso e sobre o bebê e se afastou!

Nesse momento, a figura de R (vamos chamar meu ex assim) se agigantou na minha frente. Bufava ódio!  Parecia possuído. Falou baixo, no meu ouvido, mas parecia gritar…

– Você não viu o q aconteceu agora?
– Não, Meu Deus! O quê?
– Ele botou a mão na sua buceta!

Eu fiquei estarrecida! Primeiro, porque o termo “BUCETA” jamais era usado entre nós! Nem quando esporadicamente fazíamos sexo! Segundo porque… Como é que o meu marido poderia imaginar que um vizinho nosso, na frente de todos, me tocaria daquela forma e que eu não faria ou falaria nada? Como assim?

Eu não tenho como descrever exatamente como me senti! Não tive palavras. Ainda não tenho.

Hoje, me pergunto, por que não chamei imediatamente o tal vizinho e falei na cara dos dois:  “Ô fulano! Meu marido tá achando que você meteu a mão na minha buceta!”…  Ou…

“Olhe aqui, seu retardado! Estou saindo de casa agora, porque não sou mulher de deixar algo absurdo assim acontecer sem que eu mesma tome uma atitude! Não me confunda com a sua mãe!”

O final dessa história foi uma mulher arrasada, indo embora da festa, chorando na frente de todos e, mesmo anos depois, sendo apontada como maluca, pois episódios como esse se tornaram bastante comuns na minha vida.

Hoje, olhando de fora, e muitos anos depois desse acontecimento, eu posso garantir que aquele dia marcou o início de um relacionamento absurdamente abusivo. E que, talvez, se eu tivesse me posicionado de forma incisiva, o curso de toda a minha história seria outra!

Por isso, queridos homens amigos, conversem com suas filhas e deixem claro para elas que o príncipe que elas namoram pode ser o disfarce de um cafajeste covarde! E que se você, pai e marido, nunca tratou a sua filha ou à sua mulher dessa forma, ela jamais deverá permitir que homem algum a trate assim.

E você mulher, se algo parecido estiver acontecendo em sua vida, é bom procurar ajuda. Pois tudo isso vai se agravar.

E tenho dito.

Tchau, Alfa

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Não fui propriamente um cliente assíduo do sensacional Alfa – a cada dia que passa, eu sou cada vez menos assíduo a qualquer coisa. A minha vida estava deslocada para o outro lado do que chamam de “A cidade”. Mas a cada três meses eu ia e batia meu ponto, geralmente em grandes conversas com Mauricio Nascentes, meu amigo há 20 anos (o tempo passa rápido demais). Nas férias era certo, já que em todas elas um dos meus passatempos é flanar pelo Centro, visitando os centros culturais, as ruas, conversando com os amigos, as coisas normais que a vida dentro do escritório não permite em boa parte do ano. Um dos grandes endereços do Centro do Rio, inclusive citado em meu próximo livro a ser lançado daqui a pouco mais de um mês, quando a casa terá cerrado suas portas.

Alfa de Al Farabi, não o grande matemático mas o seu nome emprestado ao sebo que virou point de gastronomia e boa música encravado na Rua do Rosário.

Em todas as vezes que lá estive, o Alfa foi uma espécie de versão dub remix de outro grande espaço da cidade, a Livraria Berinjela, que frequentei por muitos anos e, claro, também estará no livrinho.

Escolhi o Alfa para ser o local de lançamento do meu livro mais dark sobre futebol, ao lado de Zeh Augusto Catalano: “2014 – O espírito da Copa”. Pouca gente teve a ousadia de contar toda a história cotidiana do Mundial de 2014, por motivos óbvios. Mas não estávamos nem aí. A capa dizia tudo: dois garotinhos com a camisa 10 da Seleção jogando bola na rua dez minutos depois dos 7 a 1. Não há bandido travestido de dirigente que mate o futebol brasileiro, por mais que alguns possam se esforçar neste sentido. Fomos muito bem recebidos, a noite foi um barato e eu esperava colocar lá outros lançamentos mais à frente. Não vai dar. Uma pena. O livro me dá muito orgulho e o Alfa foi o grande palco dele.

Que novas trilhas sejam abertas, que novos caminhos sejam cruzados, mas fica para mim certo gosto amargo de uma cidade que cada vez dá mais passos para trás. O Rio de Janeiro da conversa fiada e rica, das cervejas, dos livros, dos discos e de tantas coisas mais, parece dar vez a uma Gotham City sem Batman, dominada pelo capital especulativo e de origem nem um pouco maravilhosa. O Comissário Gordon deu o fora e o resto que se dane. Esta cidade foi construída com boemia, camaradagem, picardia e muitas trocas de ideias, o que definitivamente não cabe em “curti ai” e figurinhas de sorrisos como linguagem profunda. Os cinemas, o Maracanã, os sebos, as livrarias, os bares camaradas, tudo vai dando adeus para os espaços bonitinhos, assépticos e de gente arrumadinha, isso quando os engravatados de Deus não vêm à calçada captar alguém pelo braço.

Tudo muito diferente do que eu pensava encontrar quando chegasse aos 50 anos de idade, que já estão à porta.

Fico com meu João Saldanha de cabeceira: “Vida que segue”.

Boas festas para quem?

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Em que fim de mundo é esse em que viemos parar?

O contraste das maravilhas contemporâneas embutidas nas novas tecnologias e nos bens de consumo, contrastadas com um planeta onde boa parte das pessoas não tem água, terra, casa e acesso a condições minimamente razoáveis de vida.

Nesta Terra Brasilis em que se plantando, tudo dá – ou daria -, temos vivido perdas e danos. Há quatro anos, é difícil respirar.

Desabrigados no olho do furacão de uma crise econômica, associados a um governo ilegítimo que repercute em todas as instâncias, enlameados pela cólera que vai do vizinho da rede antissocial ao bandido que, outrora, batia a carteira e agora atira na cara, para destruir. Ou de propostas estapafúrdias como a de há pouco, onde se pretende que boa parte dos brasileiros morra sem ter recebido aposentadoria. Ou da cegueira conveniente que não vê problema entre relações de intimidade explícita entre um multi delatado pela Operação Lava Jato e aquele que, em tese, deveria julgá-lo.

Há muitos Brasis num só. E em vários deles, ninguém tem a menor ideia do que está realmente acontecendo. Boa parte dos brasileiros instalados nas metrópoles e capitais passa por situações humilhantes, trabalhos exploratórios, remunerações indignas e pena até para se deslocar, dado que os transportes de massa geralmente são bosta. Depois de horas em pé num ônibus ou trem lotado, o que resta é tomar um banho e desabar na cama – se cama houver – para algumas horas de sono alucinógeno até começar o maldito dia seguinte, torcendo para que a sexta ou o sábado cheguem logo, de modo que a vida tenha algum mínimo sentido lúdico.

Vender o ticket, contar as moedas, pagar as contas com sorte. Alguns serão entorpecidos pelo mundo da fantasia do Jornal Nacional e só.

Mais uma vez, somos vítimas de uma elite poderosa, mas ignara, incapaz de respeitar o próximo e de qualquer sentimento de nacionalidade, disfarçado com as camisas da CBF, com todo o ridículo contido nisso.

Eu poderia estar feliz porque tenho um emprego razoável, trabalho numa sala confortável e refrigerada, consigo fazer minhas refeições prediletos diariamente, compro alguma parte dos livros e discos que me interessam, vivo bem com minha namorada e rimos muito, meu hobby de escritor alegra algumas pessoas e, até onde penso, estou em boas condições de saúde. É, isso me bastaria se eu fosse um idiota egoísta que só pensasse em mim o tempo inteiro. Mas cresci com a lição de que o homem é um ser gregário; logo, não posso achar normal olhar para a calçada da esquina e ver crianças esfomeadas, abandonadas, drogadas. Nem espiar o que ainda resta das bancas de jornal e ver a estupidez da violência por todos os lados – você pode escolher as versões local, nacional ou estrangeira. Tudo isso enquanto a lista nacional de milionários brasileiros aumenta. Na crise? Pois é.

Não falei nem falarei de gente passando por cima da lei, políticos corruptos, cidadãos corruptos, gente inescrupulosa e mais uma antiga lista telefônica inteira de vícios e defeitos.

Já me senti um verdadeiro brasileiro. Hoje, sou um inquilino do fim do mundo.

O Brasil está cada vez mais podre, vitimado por senhores de engenho do século XXI.

E pelo que se lê pelaí, dar o fora não melhora muito a coisa. Um bombardeiozinho, uma guerra, um atentado, uma explosão racista, outra homofóbica.

Desemprego, muito desemprego. Engraçado como odiavam e comemoravam o “fim do comunismo”, mas agora silenciam diante do evidente perfil falimentar da “livre iniciativa” (que nunca foi livre de verdade).

Cresci ouvindo dizer que éramos um país em desenvolvimento. Já se foram quarenta anos. Quando tudo parecia dizer que daríamos um salto à frente, recuamos trinta anos no tempo. Só falta o AI-5 para estorricar tudo de vez.

Dá para falar de Rio de Janeiro? Estado implodido e a Cidade Maravilhosa com suas bombas explodindo no coração do Centro em plena hora de almoço? Pelo menos parece que a turma das facadas deu no pé. Mas que ninguém se iluda: a barra é pesadíssima.

Boas festas para quem?

Em algum lugar do meu coração há 25 anos

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Onde eu estava há 25 anos? Em muitos lugares, com muitas pessoas e sozinho demais. Era diferente demais em tantas coisas, mas tão igual em outras.

O coração do meu Rio de janeiro em 1991 tinha três pilares principais: Copacabana, Centro e Maracanã.

Aquela batalha absurda por emprego quando você tem 22 anos de idade e pensa que é hora de definir o resto da sua vida, quando há vidas e vidas a seguir. Estágio, qualquer coisa que ajudasse em casa e provasse aos seus pais que esforço deles não tinha sido em vão. E que você se esforçou muito também. A cara do coração da cidade.

Copacabana, deusa da noite, com seus errantes, incompreendidos e inusitados cidadãos. A noite dos bares, das deliciosas mulheres de jogo, dos salões cheios de fumaça e, para os mais ousados, da irreverência dos travestis na Avenida Atlântica e do que sobrara da Galeria Alaska. Era um tempo em que eu voltava para casa basicamente para dormir ou papear com meu velho e inesquecível amigo Fred.

Pegar o ônibus às seis horas da manhã na Rua Figueiredo Magalhães e viajar até a UERJ. Ou 434 ou 435. O primeiro tinha o caminho mais charmoso dos transportes coletivos do Rio; o segundo era cartesiano, pragmático.

No último ponto antes do Maracanã, em frente ao Cefet, o fiscal que nós, garotos bobos, apelidamos de “o velhinho mala” – e ele era mesmo. Trancava o coletivo e levava uma semana para anotar os dados da roleta. Nós estávamos ali cheios de vida, loucos para descer na universidade e fazer um monte de coisas, inclusive estudar, enquanto ele trancava tudo. Mas também era um bom amigo: graças a ele, em dias de cansaço e cochilo, ninguém perdia o ponto e passava direto. Demorava tanto que as reclamações do ônibus cheio acordavam qualquer sonolento.

Antes de fincar bandeira no hall da faculdade, você podia contar seus tostões e lanchar em duas cantinas preferidas, da fome, baratas: a do terceiro andar, com seu pão com ovo e salada, ou a do nono, com recheios espertos. Conforme o caso, subia ou descia até o sexto andar.

Querendo alguma aula, quase sempre havia. Caso contrário, podia aprender coisas no grande saguão de bancos amarelos e mesas brancas, acrílicas.

As garotas eram lindas, sorridentes e adoravam quando alguém falava algo diferente naquele Brasil contraditoriamente libertário e careta do começo dos anos 1990: a promessa de futuro econômico que não se alinhava com a realidade do cotidiano. Todo mundo duro. Era o Brasil sem Cazuza mas com Renato Russo ainda voando baixo.

Ficávamos amigos dos calouros após os trotes, ou até antes. Fazíamos festas baratas com música e bebida, o pessoal dançava, ficar era o máximo. Mas nossa especialidade era a conversa fiada: horas, horas e horas falando sobre qualquer assunto legal. Ok, também éramos politicamente incorretíssimos, mas sem a menor maldade no coração. Os nossos piores reacionários nem reacionários eram direito.

Eu, que era diferente de todos os animais da minha espécie, ouvia jazz no walkman. E Kraftwerk também.

Não tínhamos um tostão e batalhávamos, mas ríamos de gol contra, anúncio de obituário publicado por engano, até mesmo um senhor esquisitão que passasse por nós e tivesse o mesmo cabelo desgrenhado que um amigo ali sentado.

Alguém vibrava com a queda do Muro de Berlim, mas nem tinha ideia de que o mundo teria vários muros para sempre.

Uns iam para casa na hora do almoço, outros para seus estágios e empregos. De noite, quase todo mundo voltava porque as reprovações nas disciplinas exigiam turno duplo. Se o Maracanã abrigasse um jogo maneiro, era só descer, ir à bilheteria e em minutos você entrava no verdadeiro maior estádio do mundo.

As festas no DCE eram muito concorridas. Nossas amigas chamadas “Amazonas do Apocalipse” estavam sempre por lá, sedutoras e divertidas. Shows fantásticos e gratuitos na concha acústica e no inacabado teatrão.

Lá pelas onze da noite, eu voltava a Copacabana. Tinha que esquentar a janta, falar baixinho, talvez assistir um pouco de TV. O Jô Soares era fantástico. E sentia uma alegria enorme quando via meus pais vivos, roncando, mesmo com todos os problemas que tínhamos. Dormir já pensando em acordar.

No dia seguinte, tudo outra vez.

Eu acreditava na felicidade coletiva e até na minha particular.

O Brasil ia dar certo e se tornar um dos grandes países do mundo, muito além do nosso maravilhoso futebol, da música, das artes em geral, a arquitetura, muita coisa. Seríamos presença certa na Praça da Apoteose das nações.

Tudo passou tão rápido que talvez nem dê tempo de lamentar o que correu mundo, mas onde ele foi desaguar.

Há muito tempo não converso de graça com tantas pessoas legais numa manhã ou noite. Ou combino viagens sinistras na sexta à tarde para partir à noite.

De toda forma, o smartphone e a internet são grandes avanços. O problema, como sempre, está nas pessoas, onde me incluo. O que foi feito de nós mesmos?

Não havia raiva, ódio, rancor, inveja, futilidades consumistas, autopromoção.

Ainda é cedo?

Nunca mais.

@pauloandel

Que fim levou?

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Que fim levou aquele velho chope de sexta-feira com os amigos da faculdade? Hoje estão todos muito ocupados demais, seja por conta da grande vida corporativa, a falta de tempo, os contas, os filhos, as mulheres e principalmente as desculpas esfarrapadas nestes dias de oi e tchau pelo smartphone.

O coração da cidade parece mais vazio e abandonado. Falam da crise mas, pensando bem, em boa parte da sua existência o Brasil esteve em crises e as ruas eram mais cheias.

Polícia não há. Tiros, balas perdidas e cada vez mais negros pobres presos para livrar o Brasil do mundo do tráfico.

Numa grande capital de um país desnorteado por golpistas de meia tigela, vai chegando quatro e meia da tarde e o caminho é ir para casa, descansar, gastar as horas, ver o futebol – sim, inventaram o futebol às sextas-feiras! – e, se der, uma cerveja razoável no bar perto de casa.

Éramos mais solidários. Gostávamos mais de estar uns próximos aos outros. A internet bosteou tudo. Não que não seja um fantástico invento, mas precisamos de gente de verdade por perto.

As relações ficaram mais distantes e frias.

Quem vai nos ouvir quando estivermos tristes, sufocados, precisando de um desabafo?

Ninguém.

Só agora entendo as atitudes de isolamento praticadas pelo meu pai há 25 anos. Ele tinha 5o anos de idade. Hoje eu tenho 48 e agora entendo tudo muito bem.

Diziam que o homem é um ser gregário. Pode ser, mas basicamente quando jovem. A maturidade parece fazer aflorar certo individualismo, ou até egoísmo.

Nas ruas temos pequenos e grandes assaltos, miséria, exclusão e tudo o que aí está porque há uma crise. Crise.

Éramos mais solidários. Se não soubemos nem consertar uma mesa de bar, o que fazer da cidade, do país, da vida?

Desculpem o amargor. É tudo coisa de uma sala fechada, refrigerada, hermética, num respeitável ambiente de trabalho justamente quando o expediente acabou de encerrar e as pessoas saem correndo feito loucas para não perderem um segundo do que acreditam, bem, acreditam ser a liberdade.

Daqui a pouco tem o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e tudo fica para trás. Antes disso, mais uma eleição de mentira.

@pauloandel

Homem em loja de lingerie

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2016. As moças falando de igualdade, empoderamento, liberdades…

Ai, você, homem, resolve entrar numa loja de lingerie para ajudar sua mulher a comprar calcinhas e soutiens.

É uma experiência muito engraçada. Parece que você está invadindo um banheiro feminino e todas as mulheres – vendedoras ou clientes – estão incomodadas pela sua inconveniente presença naquele recinto. A situação faz você se sentir uma espécie de taradão.

Você que está lendo: conhece alguma loja ou departamento de lingerie que tenha algum vendedor homem para ajudar algum comprador menos versado nas coisas femininas? Pois é.

Procurei (e achei!) todas as peças que minha mulher comprou, enquanto a vendedora que nos atendia trazia coisas inúteis e caras. Enquanto minha mulher experimentava as coisas e eu flanava pela loja, a vendedora me fiscalizava. Só dirigiu a palavra a mim uma única vez. Quando peguei um (lindo!) soutien cinza.

Isso é pra amamentar! Disse, em tom agressivo e de reprovação.

Não fosse caríssimo, eu tinha levado pra minha mulher, no provador. Só pra sacanear.

Aliás, ainda sob um olhar masculino, é apavorante a quantidade de soutiens e calcinhas com enchimento. Você vê aquele top bonito e, quando pega, parece um travesseiro, de tanto material que tem ali. A coisa atingiu um tal patamar que, sem medo de errar, 60 a 70% dos conjuntos mais bonitos que vi na loja tinham alguma espécie de enchimento. A ponto de ser difícil para uma mulher com muito busto (termo que só existe em loja de lingerie) comprar modelos sem ficar parecendo a Jane Mansfield ou a Gina Lollobrigida.

Visto de fora, bem de fora, parece incoerente. Mas pensando num mundo de silicones e botoxes, até que faz sentido. Eu só acho que o mundo feminino cada dia mais carece de sentido. Ao mesmo tempo em que querem mostrar independência e modernidade, parecem atadas a conceitos muito antiquados e, por que não, retrógrados.

Vou seguir achando divertido entrar no universo feminino, apesar das caras feias e dos olhares de reprovação. Em tempo: minha mulher se divertiu e também ficou chocada com a reação das mulheres da loja.

Cassiano

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Na sexta-feira passada, debaixo do mais absoluto silêncio, um dos maiores artistas da MPB completou 73 anos. Aliás, o silêncio que o cerca vem de décadas. Graças a ele, Tim Maia, Hyldon e outros compositores, a música do Brasil incorporou o que havia de melhor dos gêneros musicais estadunidenses de tradição negra como a Motown. Falo de Cassiano.

Fez quatro discos, todos marcados pela genialidade e inovação. Subitamente, sua carreira sofreu sério abalo no ano de 1978: teve um problema de saúde e precisou remover um dos pulmões. O afastamento que poderia levar até alguns anos ultrapassou uma década, até que em 1991 Cassiano lançou “Cedo ou tarde”, um trabalho hoje chamado pelo formato duets, com jovens estrelas da música de então, casos de Marisa Monte e Ed Motta. Era para ter sido a sua redenção, o seu retorno, mas não aconteceu.

E assim se passaram 25 anos até aqui. Nenhum novo trabalho, nenhum disco em catálogo, nada, nada, nada.

Salvo raras imagens mais recentes, em ação como produtor da legendária Banda Black Rio, agora comandada pelo talentoso tecladista William Magalhães, filho do saxofonista fundador Oberdan Magalhães (e este, sobrinho de Silas de Oliveira), não se consegue ver nada de Cassiano hoje em dia que não seja no esforço individual de blogueiros.

“Mais um ano se passou/e nem sequer ouvi falar seu nome”.

Agosto

o golpe final

AGOSTO de dias frios e corações duros, ao menos em sua maioria. Se assim não fosse, o que poderia explicar o que vivemos mundo afora, continente afora, país idem, estado e esta bela e maravilhosa cidade, agora já esmaecida com o fim das Olimpíadas e o deprimente desprezo às Paraolimpíadas que estão à vista?

No Rio, vivemos dias de felicidade por conta dos Jogos. Houve relativa paz (relativa mesmo!). Por três semanas, deixamos de lado os noticiários sangrentos e a barbárie cotidiana que temos vivido. Festa, shows, esportes, novidades no cenário. Inegavelmente a cidade teve melhoras: aí estão o Boulevard Olímpico e o Metrô Barra que não me deixam mentir. Muita gente gostou e isso pode ser a promessa de mais turismo. Excelente.

Mas não merecíamos mais do que isso depois de tantos anos de espera?

E o que dizer das transações que cercaram a Rio 2016, com um papagaio de centenas de milhões de reais a serem cobertos (possivelmente pelos contribuintes)?

Dentro de uma semana, teremos a consolidação de um golpe sujo, consagrando de vez um presidente sem votos e poupado pelas grandes operações de combate à corrupção. É desnecessário falar da pior Câmara dos Deputados que já tivemos, em todos os sentidos.

Os Jogos se foram, aos poucos vamos voltando ao que se chama de normalidade e nela, não há fadas madrinhas nem varinhas de condão.

Os absurdos, antes abafados pelas grandes manchetes olímpicas, borbulham. Da supressão de direitos decenais dos trabalhadores, passando pela gentrificação e até mesmo pela censura enrustida do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, que acabou de receber a classificação indicativa para maiores de 18 anos. Segundo o Ministério da Justiça, o filme teria “uma situação sexual complexa”. Ninguém é tão ingênuo a ponto de acreditar numa bobagem dessas: a verdadeira razão está nos protestos políticos feitos pelos atores do filme no Festival de Cannes. No economicamente combalido cinema brasileiro, restringir a presença de menores é a maneira de esvaziar a bilheteria, tudo em nome da retaliação.

Enquanto isso, os turistas ainda podem se refestelar pela policiada Cinelândia, diferente demais de outrora. A região ganhou vida nova, também ajudada pela integração VLT-Metrô. Sábado passado mesmo, eu saí por volta de nove e meia da noite da Caixa Cultural, esquina de Rio Branco com Almirante Barroso, quando me deparei com um monte de gente caminhando tranquilamente, muitos voltando do Maracanã por ocasião da disputa do ouro olímpico no futebol. Será que isso vai durar muito?

Quanto àquilo, que vá para o inferno de uma vez.

As pessoas simples

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As pessoas simples. Ah, aquelas que passam uma expressão de tranquilidade no rosto, sem dissabores, sem mágoas, talvez com certa melancolia, mas absolutamente conscientes de que não somos nada neste muito de merda, cheio de empáfia, tiranos, explorações, genocídios, doenças e miséria, miséria demais. Qual o sentido da arrogância? Nenhum. Os cemitérios abrigam milhões de esqueletos que já carregaram corpos e mentes de pessoas absolutamente perdidas na vaidade oca, no preconceito, na insistência em diminuir o próximo por causa de seus bens – ou da falta deles -, títulos, posses e o diabo a quatro.

Poderia ser o moço da borracharia comprando quatro pães e oito fatias de mortadela às seis da tarde, na padaria que fica bem ao lado do novo prédio da Petrobras no centro do Rio de Janeiro. Vestido com roupas simples, um homem simples à espera da refeição enquanto o rapaz do balcão, também simples, fala alguma coisa da derrota do Flamengo e outro rapaz do balcão, também simples, sorri brevemente. Os trabalhadores em pé desde o começo da manhã, lutando por um salário mínimo, ainda se divertem em meio ao cansaço, horas antes de longas viagens de trem ou ônibus, para um pequeno descanso e o recomeçar antes do sol nascer. O moço da borracharia pede tudo com calma e educação. É um lorde do coração da capital.  Bem perto, uma garota simples saboreia um pão na chapa, barato e gostoso, silenciosa e com ar pensativo.

As pessoas simples que ainda dão bom dia à rua ou no elevador, em tempos de repulsa coletiva. Que se preocupam quando veem alguém passando com a testa franzida ou carregando alguma dor elegante, daquela tão bem cantada por Itamar Assumpção. Que ficam realmente tristes quando veem as notícias ruins na TV, preocupadas com os semelhantes que sofrem pelo mundo afora.

Os garotos simples, com suas caixas de engraxate, atravessando a cidade de uma ponta a outra, torcendo para que homens nobres com sapatos elegantes precisem de um trato e ali esteja garantida a chance de um lanche, pelo menos.

Antigamente, era fácil encontrar muita gente simples. Bastava ir ao Maracanã. Em todos os setores do estádio, principalmente a geral, que ficava em volta do campo e onde os torcedores assistiam aos jogos de pé. Na verdade, em qualquer estádio brasileiro, antes do processo de gourmetização do futebol. Com alguns trocados, comprava-se um ingresso. Hoje mudou tudo, o Maracanã morreu também, vivemos abomináveis tempos modernos.

Domingo de manhã, a rua fechada para ser área de lazer – bem mais barato do que construir e manter parques -, os meninos ainda correm atrás da bola dente de leite, já bem gasta, enquanto os pares de chinelos humildes são as traves. Correm, gritam, sonham com aquele estádio que foi assassinado, sonham com histórias de craques que nunca chegaram a ver em campo – Pelé, Garrincha, Sócrates -, sonham com a felicidade efêmera das brincadeiras dos tempos de garoto.

Há muito tempo atrás, um senhor passava com um carrinho e sua buzina vendendo empadinhas perto do meu local de trabalho. Conversava com as pessoas, era solícito e percebia-se que não fazia aquilo apenas para vender o produto, era seu jeito de lidar com o próximo. Perto de casa, dizíamos que ele era o Seu Empadinha. Sempre que podia, eu comprava para ajudá-lo; já era um aposentado. Um dia, o carrinho nunca mais passou. A vida ficou bem mais pobre.

Paulo, meu xará, é um dos melhores funcionários de todos os prédios onde já trabalhei e morei. Senta praça no condomínio onde resido. Volta e meia rimos e falamos amenidades quando passo pela portaria, mas nem sempre foi assim: ele foi uma das pessoas a carregar o corpo de minha mãe até o carro da funerária. Algo que jamais esquecerei. Ele está sempre rindo, tranquilo, com voz mansa. Fizemos piada dia desses, quando uma moradora queria proibir os beijos entre os casais no jardim da entrada. Patético, mas não menos do que o que me disse: “Paulão, você é um dos poucos moradores que conversam com a gente”.

O mundo está errado demais. Faltam gentileza, cortesia, apreço e outras coisas mais, todas simples.

@pauloandel